Em: 6 de março de 2015 Por: Administrador

Ele aprendeu a fabricar objetos de madeira com o pai, que herdara um ofício que vinha de gerações.

Durante décadas, uma família após a outra, preparava seus móveis, para os quais havia filas de candidatos. No caso dele, A., a indústria alcançara uma excelência notável, com modelos cada vez mais sofisticados para atender a uma clientela ávida pelas belas e funcionais peças, usadas em casas e escritórios.

O principal produto dele era uma estante para livros, feita de uma madeira nobre, conhecida como jacarandá-da-bahia. A diferença competitiva é que A. conseguiu desenvolver um modelo de produção que lhe permitia entregar a encomenda de qualquer tamanho em 12 dias úteis, que era montada em 30 minutos na classe do comprador, graças a uma inovação da empresa, que trabalhava com blocos que não ficavam visíveis junto à parede.

Um sucesso.

O depósito estava cheio da nobre madeira e A. podia atender a imensa e crescente demanda. Foi assim que, por três décadas, A. ganhou o seu dinheiro, muito dinheiro.

Ocorre que o “boom” passou. Novos produtos à base de metais começaram a despertar o interesse. Eram mais baratos, mais leves e permitiam diferentes e elásticas combinações de formas e cores.

Além disso, a matéria prima de A. começou a escassear, com seus preços obviamente subindo.

Os irmãos de A. diversificaram seus negócios. Um deles deixou completamente o setor.

A. permanecia no ramo,

Acreditava que os bons tempos iam voltar. Além disso, tinha convicção que precisava, como filho mais velho, manter a tradição da família, começada não sabia ele quando.

Sua esposa também se rendeu às evidências:

— Querido, você está errado.

Ele não a ouvia.

Assentado, solitário, sobre blocos de madeira à espera de clientes que pararam de vir, A. repetia para si mesmo, qual um imaginário Narciso diante de uma beleza que não fazia mais sentido, as mesmas palavras de sempre:

— Sei que estou errado, mas não vou mudar.

Por Israel Belo de Azevedo

* Originalmente em http://prazerdapalavra.com.br/reflexoes/bom-dia/14792-bom-dia-parabola-da-indecisao

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